Quando nasce o amor…

A questão básica é: como se desenvolve a capacidade de amar? A resposta a isso é: no começo da vida. Este momento é um turning point da história de vida do ser humano e podemos compreender sua importância fazendo uso de alguns dados científicos. Para a mãe poder dar à luz é preciso que libere determinados hormônios que compõem um coquetel. Esse coquetel, chamado coquetel do amor, é igual para todos os mamíferos. Para o ser humano até há pouco tempo era impossível dar à luz sem a produção e liberação deste coquetel.
  
Hoje os partos  acontecem sem a liberação do hormônio do amor. Há ainda muitas mulheres que no parto normal dão à luz com hormônio sintético. O hormônio sintético bloqueia a liberação das drogas naturais do organismo que possuem efeitos comportamentais. A utilização de drogas sintéticas é tão rotineira que uma mulher que deu à luz sem drogas tem uma alta probabilidade de receber uma injeção de ocitocina para facilitar a dequitação da placenta. O efeito disso é bloquear a liberação da ocitocina natural, hormônio do amor.
Nos encontramos, portanto, numa situação inusitada na História da Humanidade: a grande maioria das mulheres do mundo dá à luz sem amor.
O que vai acontecer após 3-4 gerações? O que será de nossa civilização?
É de fundamental importância redescobrir as necessidades básicas das mulheres durante o trabalho de parto e o parto: são necessidades iguais àquelas de todos os outros mamíferos. Para estes como para elas, a adrenalina inibe a ocitocina. A adrenalina é um hormônio que é liberado quando estamos com medo, nos sentimos observados e estamos num lugar frio. Sentir-se seguro, não ser observado e estar num lugar quentinho são necessidades básicas.
 
O ser humano tem um handicap, uma “deficiência”: seu alto desenvolvimento do cérebro, do neocórtex, que é o cérebro pensante. Daqui vêm às inibições. A natureza achou uma maneira de resolver esse empecilho: durante o parto se tem uma redução das atividades do neocórtex. Por isso se diz que a mulher está em “outro plano”. É importante não estimular o neocórtex, o que pode acontecer, em primeiro lugar, através da linguagem. É preciso redescobrir a importância do silêncio.
Quem sabe, no futuro, um país como o Brasil poderá ensinar ao resto do mundo que a escalada astronômica em direção à cesárea e à desconsideração dos processos fisiológicos naturais, pode ser revertida. Há razões para ser otimista.

 

Michel Odent – Obstetra francês pioneiro no parto na água e de cócoras radicado em Londres fundador do Centro de Pesquisa Primal, autor de diversos livros e artigos sobre parto 
 

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