Voz materna acalma coração de bebês prematuros.

Após o nascimento dos filhos gêmeos e prematuros, um cientista americano, sem querer, descobriu a possibilidade de evitar problemas cardiorrespiratórios dos bebês da forma mais simples: gravando a voz da mãe para os bebês ouvirem. É não é que deu certo?

Se você clicou nesta reportagem esperando ler mais uma pesquisa, prepare-se para descobrir também uma linda história. Há quase cinco anos, o neurocientista americano Amir Lahav se tornou pai de gêmeos prematuros nascidos com 25 semanas. Os bebês pesavam pouco mais de 500 gramas cada um.

O nascimento dos filhos mudou não só a vida de Lahav, mas também os rumos de sua pesquisa. O cientista, que estava acostumado a trabalhar com adultos, deixou seu instinto paterno falar mais alto e procurou o chefe da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Brigham, em Boston, nos Estados Unidos, onde os bebês estavam internados. Perguntou a ele se poderia colocar uma gravação com a voz de sua esposa perto das crianças. A expectativa de Lahav era que o tom suave da voz da mãe melhorasse o desenvolvimento dos bebês, e o chefe concordou com a proposta.

Em seu computador, Lahav gravou a voz de sua esposa. Na mensagem, ela pedia para seus filhos lutarem para sobreviver e serem fortes. O pai também incluiu algumas músicas tocadas no piano em um ritmo bem suave, imaginando que isso poderia ajudá-los a relaxar. Ele ainda modificou o som para que se assemelhasse o máximo possível aos ruídos que os bebês ouviam dentro do útero. “Nós ouvimos as ondas sonoras através do ar, os bebês estão mergulhados no líquido amniótico e ouvem o som de forma fluida, como se estivessem vivendo dentro de um caixa de som cheia de vibrações”, contou Lahav em entrevista à revista Time.

Os gêmeos pareciam gostar das gravações e os médicos e enfermeiros da UTI ficaram intrigados. Além disso, a iniciativa se mostrou terapêutica para Lahav e sua esposa. “Não foi um ensaio clínico controlado, foi apenas um pai louco tentando fazer alguma coisa pelos seus filhos. Porque, especialmente no caso de bebês prematuros, você se sente muito impotente”, confessou Lahav à publicação.

Após os gêmeos deixarem o hospital, o cientista foi até lá para agradecer ao chefe da UTI que o deixou fazer o experimento. O que era para ser apenas um bate-papo informal se tornou uma conversa séria sobre prematuridade e medicina neonatal. Atualmente, o objetivo dos médicos vai muito além de cuidar para que esses bebês sobrevivam. Eles buscam ajudar essas crianças a crescerem saudáveis, já que estudos têm mostrado que prematuros têm um risco maior de baixo QI e podem desenvolver doenças crônicas na vida adulta. Será que mantê-los próximos aos sons reconfortantes da voz da mãe ajudaria a diminuir a incidência desses efeitos adversos? Essa era a pergunta que Lahav gostaria de responder.

Como parte de um acordo, o hospital construiu o primeiro estúdio de gravação profissional dentro de uma UTI do mundo. Em seguida, os cientistas começaram um estudo com 14 bebês nascidos entre 26 e 32 semanas para descobrir se eles poderiam ser beneficiados com o som da voz materna. Eles ouviam em quatro períodos do dia a gravação da voz da mãe falando, lendo ou cantando. E, para surpresa de Lahav, sim, aqueles que ouviram a voz da mãe se mostraram menos propensos a terem paradas respiratórias ou problemas cardíacos.

Outro ponto da pesquisa foi analisar por que muitos bebês prematuros nascidos sem nenhuma lesão cerebral diagnosticada têm risco de dificuldade de aprendizagem ou problemas cognitivos e sociais durante a vida. Para Lahav, a exposição desses recém-nascidos a sons de máquinas e ruídos estranhos de uma UTI tão precocemente poderia levar a problemas comportamentais no futuro. E novamente, a voz da mãe fez diferença, em especial para bebês com mais de 33 semanas, que já processam melhor os sons. A explicação seria que ela é capaz de reduzir a liberação dos níveis de cortisol, o hormônio do estresse, da criança.

É nesse ponto que o psicobiólogo Ricardo Monezi, pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Unifesp concorda com o cientista. “A voz da mãe é a primeira música que a criança ouve, é quase um mantra e, como tal, tem plena capacidade de acalmar. Dentro do útero, o som é percebido pelo corpo todo através das vibrações, assim como uma pedra que atinge a água e gera movimentos contínuos. O mesmo acontece com o bebê prematuro na UTI ao ouvir a voz da mãe. Os benefícios atingem o corpo todo”, diz.

O próximo desafio do cientista é iniciar um estudo rigoroso com mais de 100 bebês nascidos antes de 32 semanas. Eles serão divididos e apenas metade vai receber as gravações com a voz materna. Mais vale um alerta. Por mais tentador que isso possa parecer, Lahav desaconselha que esse procedimento com o gravador seja feito em casa, por causa do ajuste do volume do som. Agora, você mesma conversar com o seu filho sempre será um bem enorme para ele – na barriga ou nos seus braços. Aproveite esse momento!

http://revistacrescer.globo.com

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