A Cura pelo Leite Materno

Imagine se os nutricionistas surgissem com uma cura milagrosa para a desnutrição infantil? Uma substância rica em proteínas que não demandasse refrigeração? Algo livre para uso e disponível, mesmo em locais mais remotos, como este, em Niger, onde, rotineiramente, bebês morrem por causas causas associadas à fome.
Você diria ser impossível? Pois, na verdade, essa cura milagrosa existe: trata-se do leite materno.
Quando pensamos na pobreza global, por vezes pressupomos que os desafios são tão imensos que qualquer solução deva ser extraordinariamente complexa e cara. É o caso de algumas, mas quase nada existe com capacidade de fazer tanto para o combate da inanição no mundo quanto a solução de baixa tecnologia que é a amamentação exclusiva durante os seis primeiros meses de vida. É essa a recomendação mais enfática da Organização Mundial da Saúde.
O paradoxo é que, ao mesmo tempo em que parece algo tão barato e óbvio, virtualmente instintivo, é também raro. Aqui em Niger, somente 9% dos bebês recebe apenas o leite materno durante os seis primeiros meses de vida, conforme um levantamento nutricional nacional de 2007. Isso equivale a um aumento de 1% desde 1998. Nos Estados Unidos, cerca de 13% dos bebês são amamentados com exclusividade durante seis meses, conforme o Centers for Disease Control and Prevention. Mais uma vez, a maior parte dos bebês recebe fórmula, algo bastante seguro na America do Norte. Ao lado de Niger, em Burkina Faso, menos de 7% das crianças recebe, com exclusividade, o leite materno durante seis meses. No Senegal, os números ficam em 14%, na Mauritânia, 3%. Esses são alguns países por onde estamos passando na minha viagem-prêmio anual, este ano acompanhado por um estudante de medicina de Atlanta, Saumya Dave e uma professora de Newark, Noreen Connolly.
Corta o coração encontrar crianças excessivamente desnutridas e deparar-se com uma mãe atrás da outra, que enterraram os filhos, quando não foi aplicada solução tão simples para salvar vidas. O maior problema é que muitas mães acreditam que seu leite não é suficiente e que, em dias quentes, seus bebês precisam de água também.
Em uma via rural, perto da remota localidade de Dogon Doutchi, ao sul de Niger, deparamo-nos com uma família de nômades Tuareg, deslocando-se para o norte. Num dia quente, bebês precisam de água, disse-me Gayshita Abdullah, a mãe. Disse-me também que tenta conseguir água de um poço; não havendo um por perto, pega a água numa poça lamacenta.
Há, na verdade, muitos nutricionistas inflexíveis quanto à alimentação exclusiva de bebês com leite materno e nada mais mesmo, durante seis meses de vida (costumam mencionar quatro meses, mas recomendam agora seis). E a água, nos países pobres, costuma estar contaminada, sendo perigosa para bebês. Mesmo quando a própria mãe está desnutrida, o corpo, normalmente, oferece leite suficiente para o bebê, dizem os nutricionistas.
Um relatório de 2008, no periódico médico The Lancet, informou que um bebê parcialmente amamentado apresenta 2,8 vezes mais probabilidade de morrer, na comparação com um bebê amamentado com exclusividade durante, pelo menos, cinco meses. A criança não amamentada de forma alguma apresentaria 14,4 vezes mais possibilidades de morte. Conforme The Lancet, resumindo, 1,4 milhões de mortes infantis poderiam ser evitadas, anualmente, se os bebês fossem amamentados de forma adequada. O que se tem é uma criança que morre, sem necessidade, a cada 22 segundos.
Até onde as intervenções estudadas mostram, temos evidências esmagadoras da eficácia da amamentação na redução da mortalidade infantil, disse Shawn Baker, um especialista em nutrição da Helen Keller International, uma organização que trabalha com essas questões. Trata-se da mais antiga intervenção alimentar conhecida em nossa espécie e está disponível a todos, acrescentou Baker.
No entanto, para comunidades em desenvolvimento, focalizada demais em novidades tecnológicas, a amamentação não evoluiu como deveria. Os desafios com o aleitamento materno, nos países pobres, não são os enfrentados pelas mulheres ocidentais, e muitas delas, em países em desenvolvimento, ainda amamentam os bebês durante dois anos. O maior problema é oferecer água ou leite animal aos bebês, em especial, em dias de calor. Outro problema é o fato de as mães terem dúvidas quanto ao valor do colostro, o primeiro leite após o nascimento (espesso e amarelado, não muito parecido com o leite), o que as leva a retardar o aleitamento por um ou dois dias.
Uma mãe perto da cidade de Dosso, Fati Halidou, que perdeu quatro dos sete filhos, disse-me que, após o nascimento, o melhor é oferecer água com açúcar, ou água do Corão, que é a água feita através da escrita de um dos versos do
Corão em uma tábua, que é lavada, fazendo com que a água com a tinta seja oferecida ao bebê para protegê-lo.
Ainda não está compreendido por que o instinto humano de amamentar se desvia. Teria algo a ver com a sexualização das mamas? Ou com os fabricantes de fórmulas, que, de forma irresponsável, espalhavam os produtos no passado, embora hoje encontrem mais limitações? Ou é apenas o fato das mães preocuparem-se com a necessidade de água pelos bebês, nos dias quentes? Ninguém sabe!
O que é sabido é a existência, em todos os lugares, de uma solução maravilhosa, de baixa tecnologia, para a desnutrição infantil.

By Nicholas D. Kristof, Dogon Doutchi, Niger – 22/06/2011
Tradução: Regina Garcez

Louise Arce Tellalian, RN, CLC, FACCE
1911 San Ysidro Drive
Beverly Hills, CA 90210
310-274-2272; Fax 310-859-7077
louisetlan@earthlink.net
“Amamentar é o bem mais precioso que uma mãe pode dar ao filho. Diante de doenças ou desnutrição, pode ser o bem que salva vidas; diante de pobreza da pobreza, pode ser o único presente.”
Dr. Ruth Lawrence

Fonte: http://www.ibfan.org.br/

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